Você já deve ter visto alguns deles enquanto dava uma volta por qualquer grande cidade do País. O visual é inconfundível: cabelos multicoloridos e espetados, roupas que fogem à natureza climática da região, maquiagem pesada e muitos, mas muitos acessórios e apetrechos ligados à sempre efervescente cultura pop juvenil. Embora não tenha se transformado em uma febre tão intensa na região Norte brasileira, a moda cosplay já possui seus adeptos e conquista espaço cativo no calendário cultural das capitais - e Belém não foge à regra, com eventos e encontros especialmente dedicados à arte da transfiguração de personagens. Mesmo longe da terra do sol nascente - atual reduto global da prática -, quem gosta de cosplay dá seu jeito e faz bonito por aqui mesmo. Mas como?
Para começar, é bom dar uma revisada no termo e explicar seu significado. Cosplay deriva da expressão costume players, utilizada inicialmente nos Estados Unidos para rotular pessoas que se trajavam - e comportavam - de acordo com algum personagem famoso da cultura pop local. Valia de tudo: super-heróis, personagens de quadrinhos, desenhos animados e até mesmo de filmes - animações, de preferência.
O mais interessante é que os adeptos tinham como lema o famoso do it yourself (faça você mesmo): dos próprios bolsos, eles tiram a grana para comprar tecidos, acessórios e preparar a própria roupa, com, no máximo, o auxílio de uma boa costureira. Uma espécie de moda pessoal, feita para ocasiões especiais como convenções de quadrinhos e festivais. Mas foi no Japão, reduto de quadrinhos e animes da década de 1980 em diante, que a moda cativou de vez os jovens. A partir da cultura oriental e de seus personagens, então, o cosplay ganhou notoriedade nacional.
Daí para a coisa emplacar em plena Amazônia, houve um longo caminho. Caminho que envolveu a exibição de séries e comercialização de quadrinhos japoneses (os famosos mangás) a nível nacional - afinal de contas, quem não lembra da famosa estreia da série 'Cavaleiros do Zodíaco' na extinta TV Manchete, em meados de 1990? Foi assim que as novas gerações se deixaram mergulhar de vez na mania - coisa que gente como a comerciante Nilda Costa, de 29 anos e adepta do cosplay até hoje, recorda com certo carinho e saudosismo.

'Quando comecei a ver ‘Cavaleiros’, percebi o quanto gostava da cultura jovem japonesa. Comprava fitas cassetes dos desenhos que não chegavam no Brasil pela Internet, as traduções eram horríveis (risos). Mas a gente dava um jeito', brinca. 'Juntei uns amigos que também gostavam da coisa e começamos a comprar artigos lá no Comércio para fazer nossas próprias fantasias. Conforme as séries começaram a ganhar mais espectadores e fazer sucesso, a gente assumiu essa coisa para nós e fundou um grupo de cosplayers e admiradores da moda, da música e da atitude jovem japonesa', conta Nilda, que foi uma das fundadoras do Grupo Shogun (http://www.shoguncosplayer.net), um dos mais tradicionais da cidade no ramo.
De lá para cá, o grupo já chegou a reunir mais de 80 adeptos, mas hoje conta com apenas 31 membros fixos e atuantes. A idéia de coletividade não se resume aos encontros ocasionais para desfilar novos visuais e discutir a produção de moda cosplay: anualmente, o coletivo também organiza o evento Otaku no Matsuri, um grande encontro de cultura japonesa que inclui shows musicais e de dança, mostras de cinema, concursos e desfiles para os cosplayers mais extrovertidos.
A última edição aconteceu em novembro passado e reuniu um público de mais de mil pessoas. O grande prazer, conta Nilda, é ver que o tempo passa e a prática continua. 'A juventude atual está abraçando a causa. É bom ver que superamos os pré-conceitos e provamos que o cosplay não é uma moda passageira, e sim uma forma de atividade cultural', acredita.
GERAÇÕES
Pois é: a cultura oriental, de fato, se prolonga entre as novas gerações daqui. Desde adolescentes até marmanjões com diploma e vaga no mercado de trabalho, os trejeitos japoneses fisgaram todas as tribos e souberam aproveitar a boa maré no mercado cultural para se fortalecer. A estudante de Arquitetura e Urbanismo Brenda Coutinho, de 21 anos, é um bom exemplo de quem faz o possível para manter a prática em seu dia-a-dia. Entre aulas da faculdade, estágio e cursos de dança e língua japonesa, ela ainda encontra tempo para confeccionar cosplays de seus personagens preferidos de animes como 'Sailor Moon' e 'Cavaleiros': alguns, inclusive, saem mais difíceis que a encomenda.
'Já passei meses fazendo a peruca de um único cosplay, mas para mim esse é o maior prazer da coisa. Não consigo comprar uma fantasia já pronta, a graça é prepará-la manualmente, conforme seus recursos e necessidades', conta Brenda, fã desde os 14 anos de boa parte da produção de mangás japoneses comercializada no Pará.
O que, antes, pareceu apenas uma modinha passageira para os pais, hoje é fonte de orgulho: Brenda confecciona cosplays com os amigos, desfila com eles e participa de todos os eventos do ramo que acontecem na cidade, sempre no intuito de testar suas possibilidades de reinvenção. 'Antes, meus pais olhavam mal, achavam que era coisa de moleca, mas hoje eles ficam querendo saber a quantas anda minha roupa, quando vou me apresentar', brinca. 'Eles aprenderam a valorizar o cosplay como uma espécie de arte', conclui.
O estudante Jaime dos Santos Netto, de 17 anos, é outro dos que admiram não só o visual, mas a música, a história e o conceito por trás da terra do sol nascente.
VISUAL KEI
O 'Visual Kei', explica Jaime, é um conceito que permeia moda e música e foi criado por grupos de rock japoneses a partir da influência do glam rock ocidental. A fórmula-base é a mesma do cosplay: roupas e acessórios coloridos e muita, mas muita força de vontade. 'A diferença é que o cosplay é uma espécie de imitação de um personagem já existente, enquanto que o ‘Visual Kei’ é uma moda. Ou seja, você pode fazer um cosplay de um artista ‘Visual Kei’, por exemplo', ensina ele. Tarefas como essa, por sinal, não são nada fáceis em Belém.
'Aqui em Belém, a gente sente dificuldade para fazer as coisas direitinho, nem tudo dá para achar no Comércio (risos). Alguns acessórios são impossíveis de encontrar. Já tive que encomendar uma peruca da China para conseguir completar um cosplay de ‘Cavaleiros do Zodíaco’. Passei mais de um ano preparando a roupa inteira, é um trabalho artesanal que leva muito tempo', comenta Jaime, que recentemente decidiu fazer vestibular para Publicidade e Propaganda no Rio de Janeiro.
J-ROCK
Se para os cosplayers tradicionais o cenário cultural de Belém já é um pouco restrito, que o diga para os grupos de rock adeptos da estética multicolorida da cultura oriental. Com cerca de seis meses de atividade, a banda de J-Rock Kuroi Usagi começou com o pé direito no ano passado: tudo porque 2008 foi o centenário da imigração japonesa. Desde lá, no entanto, o grupo está com uma agenda mais 'fria' de shows e performances. 'Agora, fazemos o possível para tocar em qualquer evento de cultura japonesa', conta o baterista Murilo Dantas, de 16 anos. Ao lado de Marcos Victor (guitarra), Danilo Mercês (baixo), Daniel Freitas (guitarra) e Reginaldo Dantas (vocal), o jovem é adepto do 'Visual Kei' - o que, invariavelmente, torna os shows da banda uma 'superprodução' à parte. 'Cada show pede uma preparação de meses. Desde o visual até os ensaios, tudo sai do nosso próprio bolso (risos)', comenta Murilo, cujas influências musicais vêm de grupos J-Rock da safra recente, como Luna Sea e Dir Engrey. 'O mais legal de tudo é ver a reação das pessoas. O público enlouquece, sabe que a gente vai tocar todo arrumado e fica na maior expectativa', completa o jovem baterista.
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